Encontro celebra o Zambiapunga como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia

O município de Nilo Peçanha foi palco de um momento ímpar para a cultura baiana, no último sábado (24), sediando o I Encontro de Zambiapungas do Baixo Sul. Evento marcado pela valorização e reconhecimento da referida manifestação como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. O evento reuniu mestres, brincantes, coordenadores, professores, alunos e a comunidade em geral. Objetivou uma mobilização em prol da ancestralidade e tradição em um universo contemporâneo. Um dia marcado pelo cheiro do cravo e do dendê, misturados ao som das enxadas, búzios e tambores. Uma verdadeira reverência aos ancestrais e a rica cultura popular.

O Zambiapunga é uma herança africana. Chegou à Bahia trazida pelos negros bantos, escravizados na região do Congo-Angola e usados na Bahia para o incremento de atividades agrícolas, plantio de canaviais do Baixo Sul da Bahia. Região onde se concentra o Zambiapunga, um folguedo que não existe em nenhum outro lugar do país. Na África, até hoje há festas de mascarados com este nome, feitas para homenagear os ancestrais. “Me sinto orgulhoso e feliz! Que alegria podermos levar o Zambiapunga ao Mundo. Zambiapunga é minha vida! É apaixonante levar essa alegria pelas ruas das cidades”, vibrou o mestre Jorge dos Santos de Valença (conhecido como mestre Pito). O Encontro contou com uma rica programação, com rodas de conversas, oficinas, cortejo e exposições de fotografias, artesanato, instrumentos e fantasias.

O I Encontro contou com a participação dos grupos de Nilo Peçanha, Taperoá, Valença e Cairu. Em 2018, o Governo do Estado da Bahia decretou o Zambiapunga e Caretas como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. Tal reconhecimento foi oficializado durante o evento, quando Roberto Pellegrino, representando o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC – Secretária de Cultura da Bahia), juntamente com representantes do Conselho Estadual de Cultura e Liliana Leite do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia (IDES), entregaram os certificados aos grupos dos quatros municípios citados acima. “É um reconhecimento muito forte, pois destaca a relevância dentre todos os bens culturais. Esse encontro também é importantíssimo, pois fortalece e cria uma rede de intercâmbio, proteção e divulgação desse bem cultural. Vejo tudo isso com muita alegria e vamos chegar na Bahia toda. A nossa intenção é reconhecer os bens que mereçam tal referência, fortalecendo cada dia mais a cultura da Bahia que é tão rica”, explicou Pellegrino.

“Uma grande alegria para todos nós alcançarmos este reconhecimento. Agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade de colaborar com tudo isso”, comemorou o mestre Elival Rosário de Nilo Peçanha. Walmorio André, um dos idealizadores do Encontro e presidente do Zambiapunga de Nilo Peçanha, explicou como surgiu a ideia do evento: “A partir de uma inquietação minha e de Cláudio Mendes, resolvemos nos inscrever para um prêmio do Ministério da Cultura em 2018, e fomos contemplados. Daí decidimos fazer uma celebração para comemorar o reconhecimento do IPAC. Um sonho que hoje se torna realidade”. Walmorio ressaltou o trabalho desenvolvido com crianças e adolescentes: “Hoje, boa parte dos adultos que viajam para as apresentações vieram da ala mirim. Explicamos a eles que o Zambiapunga é um patrimônio de todos nós, que precisamos cuidar com carinho. Ensinamos a história, as coreografias, as músicas, os toques, as indumentárias. Eles se sentem parte disso”. Walmorio agradeceu ao CCPI, IPAC, Conselho Estadual de Cultura e a prefeitura de Nilo Peçanha: “A ideia é que no próximo ano façamos este encontro em outro município do Território”.   

De acordo com as tradições, os cortejos de Nilo e Taperoá vão às ruas na madrugada do dia 1º de novembro. O de Cairu também sai na madrugada, mas na data que celebra a padroeira da cidade. O Zambiapunga de Valença (do distrito de Cajaíba) e o da Gamboa do Morro (Ilha de Cairu) se apresentam em datas variadas, incluindo festejos juninos e carnavalescos. “O nosso Zambiapunga também é conhecido como Caretas. Manifestação presente em Cairu sede, Gamboa, Galeão e Boipeba. No dia 12 de outubro em Cairu, durante a festa de Nossa Senhora do Rosário, os Caretas saem na madrugada, acompanhados por toda comunidade. Um momento vibrante! Outra atividade importante é a oficina para grupos mirins que acontece em Cairu, com o objetivo de dar continuidade às nossas tradições. Aproveito para parabenizar todos os mestres pelo trabalho que realizam nas suas comunidades, não só preservando e elevando as manifestações populares, como melhorando a qualidade de vida de centenas de jovens”, afirmou Graça Peleteiro, secretária de Cultura de Cairu.

“O Ides, durante esses 22 anos de trabalho, tem focado muito no patrimônio como ativo econômico e social. Ou seja, o patrimônio gerando receita para a população. Valores morais e materiais. E, comemorar os 22 anos com esta celebração do Zambiapunga é um grande presente”, destacou Liliana Leite. O público do evento reuniu pessoas de Nilo Peçanha, Igrapiúna, Maracas, Wenceslau Guimarães, Santo Amaro, Cairu, Aracaju, Valença, Salvador, Ibirapitanga, Ituberá e Taperoá. Também prestigiaram o Encontro: Otávio Mota, coordenador do Centro de Cultura de Valença; secretários municipais do Baixo Sul; prefeitos de Nilo Peçanha, Taperoá e Igrapiúna; professoras Lili Camadelli e Nubia Cecília; antropóloga Jamile de Sena; mediadores Chico Nascimento e Josenildo Normandia; vereador Adailton Francisco de Valença; vereador Silvio Humberto de Salvador. “Estou feliz em conhecer de perto o Zambiapunga. Fruto de muita luta. E é isso que devemos fazer: resistir e seguir na batalha pela cultura do nosso país. Temos uma grande capacidade de alcançar importantes resultados. Essa manifestação representa luta e valorização das comunidades locais”, avaliou o vereador Sílvio. 

Liliane Santos, que coordena há dois anos o Zambiapunga de Valença falou da sua emoção e alegria de vivenciar uma tradição passada de geração em geração, e destacou que eles tem como grande objetivo “fazer um trabalho bonito na comunidade, resgatando crianças e adolescentes que vivem em condições de risco”. A sede do grupo fica no distrito de Cajaíba, Km 4 de Maricoabo, na Associação Lar Cultural Balbino. Mestre Deco de Taperoá também destacou que é feliz por ter a oportunidade de fazer cultura abraçando crianças e adolescentes que precisam de apoio: “Obrigado meus alunos pela participação, momentos de diálogo e aprendizagem. Com a ajuda de vocês conseguimos resgatar manifestações como a Chegança, Samba de Rolar, Bumba Meu Boi, entre outras. E, temos que comemorar muito esse título de Patrimônio Imaterial, pois é muito valioso e relevante para nossa cultura”.

Fonte: Baixo Sul em Alta/Vanessa Andrade

Fotos: V1 Comunicação/Cláudio Mendes