Coordenador do Instituto Baleia Jubarte fala sobre os encalhes de animais ocorridos na Costa do Dendê

O período de visita das baleias Jubarte na costa brasileira tem chamado a atenção para o turismo de observação destes belos e incríveis animais, o que vem gerando renda para o setor. Por outro lado, com o crescimento da população destes cetáceos, também aumentou o aparecimento de animais mortos nas praias do Baixo Sul da Bahia. Só na Península de Maraú, por exemplo, foram quatro baleias mortas num curto período de uma semana.

Para entender os motivos do aumento da população de Jubartes e os casos dos animais que apareceram mortos nas praias de Maraú, o Portal Pratigi conversou com o Médico Veterinário e coordenador de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, Milton Marcondes.

Jubarte que apareceu morta na praia de Taipu de Fora, em Maraú. Foto: Beko Santana

Milton informou que de janeiro até agora, em agosto, ocorreram 41 encalhes de baleia Jubarte na Costa do Brasil, sendo que 13 desses foram na Bahia. Em 2018, foram 76 encalhes no Brasil e 36 na Bahia, o que mostra uma diminuição no número de encalhes no mesmo período. “2019 está sendo um ano relativamente tranquilo com menos ocorrências do que no ano passado. Mas a gente teve 4 casos muito próximos na Península de Maraú e alguns fatores fazem com que se tenham encalhes próximos”, disse.

Às vezes a baleia já está morta em alto mar e são necessárias condições de vento para que essa carcaça possa ser empurrada em direção à costa. “Então quando entra uma frente fria ou vento soprando do mar para a terra, isso acaba trazendo os animais que estavam mortos no mar. Pode ser que tenha acontecido um vento soprando e tenha trazido carcaças que já estavam à deriva há algum tempo na região de Maraú”.

PROXIMIDADE COM A COSTA PROPICIA ENCALHES

A proximidade com a costa facilita a aparição de baleias nas praias da região, como se tem notado em Morro de São Paulo, Boipeba, Pratigi, Saquaíra, Taipu de Fora e Itacaré, por exemplo. Como na região da Península de Maraú a plataforma continental não é muito larga, existe maior probabilidade de aparições destes animais e os casos de encalhes como os vistos nos últimos dias.

POPULAÇÃO DE JUBARTES EM CRESCIMENTO

As baleias jubarte podem ser reconhecidas pelo padrão de marcas e manchas na parte de baixo de sua nadadeira caudal que varia de baleia para baleia. Isso funciona como a nossa impressão digital, é única para cada indivíduo.

O Instituto Baleia Jubarte contou ao Portal Pratigi que em 1988, quando foram iniciados os trabalhos do projeto, havia uma estimativa de se ter menos de 2 mil baleias na Costa do Brasil. Com as ações de conservação, essa população veio crescendo e, segundo estimativas de 2015, a população cresceu para cerca de 17 mil baleias. “A gente vai começar essa semana um sobrevoo que vai pegar todo o litoral, desde o Rio Grande do Norte até o Rio de Janeiro e a gente vai estimar o tamanho da população que já deve ter ultrapassado a marca de 20 mil baleias. Estamos falando em dez vezes mais animais do que há 31 anos”, afirma Milton Marcondes.

De acordo com o coordenador, é natural que se tenha mais encalhes, tanto de animais que morrem de causas naturais, por exemplo um filhote que se separa da mãe e morre porque é dependente do leite que a mãe produz; uma baleia que morra de doença ou de velhice e há os casos de animais que são mortos em função de ações do ser humano. “As redes de pesca, os atropelamentos por navios, a ingestão de sacos plásticos e demais poluentes que homem descarta no mar, tudo isso pode ocasionar a mortes de Jubartes”.

As Jubartes enxergam bem tanto dentro como fora d’água. Este comportamento de erguer a cabeça na vertical e dar uma espiada é chamado de periscópio.

ANTES AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO, AGORA EM CRESCENTE POPULAÇÃO

As Jubartes tiveram ameaçadas de extinção durante muito tempo, por causa da caça predatória. A caça comercial que acontecia de forma mais intensa no século 20, reduziu muito a população de baleias que chegou a menos de 5% do que existia originalmente no mundo todo. Essa caça foi interrompida na década de 70 e demorou muito tempo para as baleias começarem a mostrar sinais de recuperação da população.

Trata-se da retomada do que existia antes da caça. A população volta ter números que eram próximos de antes da caça acontecer no Brasil. As jubartes saíram da lista de espécies ameaçadas em 2014, num dos poucos casos de animais ameaçados e que conseguiram sair da lista e com isso está ocorrendo uma situação em que as pessoas não estavam acostumadas em ver um mar cheio de baleias onde os conflitos com as atividades humanas acontecem de forma intensa.

Sobre os incidentes envolvendo Jubartes e a pesca, Milton Marcondes disse que o emalhe de baleia em equipamentos de pesca está aumentando e isso é um problema tanto para as baleias que acabam morrendo vítimas da rede como também para os pescadores, principalmente os artesanais que dependem daquela rede para a sua sobrevivência. As baleias acabam levando vários metros de rede presos no corpo e isso causa prejuízo pro pescador. 

Baleia Jubarte saltando no litoral da Bahia. Com o crescimento da população este tipo de registro está cada vez mais frequente.

AS JUBARTES E O TURISMO DE OBSERVAÇÃO

A recuperação da população das baleias Jubarte traz muitos benefícios, por exemplo para o turismo de observação que se encontra bem estabelecido na Bahia, com exemplos em Praia do Forte, Morro de São Paulo, Península de Maraú, Itacaré, Banco dos Abrolhos, Porto Seguro, e Caravelas. Isso gera renda para as comunidades através do turismo. “Não é só o operador do turismo, o dono da embarcação, mas o pessoal da pousada, dos restaurantes. Todos lucram com a presença de turistas observadores”.

Além do turismo há um outro papel importante das baleias que é o fornecimento de nutrientes vindos das águas polares para as águas tropicais. As baleias se alimentam no verão nas águas da Antártida e vem se reproduzir no inverno no Brasil.

Quando a baleia respira ela solta ar com alta pressão e a água que fica sobre o orifício respiratório é pulverizada num spray como um jato de desodorante.

Durante essa jornada, as baleias deixam suas fezes e urina, enriquecendo os mares de nutrientes como o ferro e o nitrogênio, que servem de alimento para os peixes aumenta a produtividade da vida marinha. “Estamos buscando entender o quanto uma baleia é importante para a produção pesqueira do País e quando essa baleia morre e sua carcaça afunda, muitos organismos vão se alimentar dessa carcaça e isso aumenta a produtividade da nossa região. As baleias têm uma importância ecológica muito grande e é um privilégio termos uma população de Jubartes bem conservada e saudável como a gente está vendo agora” finalizou Milton Marcondes.

Fotos: Milton Marcondes/Instituto Baleia Jubarte

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