Artigo: Até quando a superpopulação de cães e gatos será desconsiderada?

“Um conceito recentemente difundido, que acredito ser realizado por muitos veterinários de forma individual, é a medicina veterinária do coletivo. Eventos deste tema abordam a melhoria da qualidade de vida de animais que vivem em abrigos, porém, acredito que este cenário só é possível por existir gente que patrocina esta reprodução não desejada e acaba extravasando para as ruas das cidades, um dos aspectos, claro.

As políticas públicas não visam a origem do problema, hospitais veterinários gratuitos são necessários, são essenciais, e mesmo assim uma realidade em poucas capitais, mas não resolvem o problema, mesmo que os Centros de Controle de Zoonoses fossem excelentes pontos de castração em massa, o que não é realidade também em muitos municípios, também não resolveria o problema.

A superpopulação de cães e gatos é um problema amplo, generalizado, multifatorial, que requer esforço contínuo, conjunto e participativo, necessita de interesse político, existe uma enorme massa de médicos veterinários atuantes na área de clínica de pequenos animais, porém, extremamente insatisfeitos com a desvalorização que não é de hoje. Nossa matéria-prima, os cães e gatos, são desvalorizados demais pela população no geral, por poderem abandoná-los sem o menor constrangimento, sem o menor remorso, e sem a menor punição, quando existe ainda por cima não faz nem cócegas, quanto mais conscientizar.

O valor dado pelas pessoas ao pet, no geral, é o mesmo que dão ao veterinário, por isso que vemos os casos chegarem cada vez mais deploráveis, tumores gigantescos que não surgiram em 3 dias como dizem, nem animais que perderam mais de 20% do seu peso da noite para o dia, e mesmo assim as pessoas acreditam que só por haver conquistado um diploma de nível superior podemos reverter esse quadro como mágica, e o pior, sem precisar de exames.

É tão fácil pegar um animal para criar, difícil é achar proprietários conscientes, que buscam a informação antes de buscar o animal, que não se livrem dele no primeiro feriado do ano, ou por mudar de endereço, ou por nascer um filho. Enquanto a criação de animais for banal como esta sendo, e cada vez pior, a superpopulação de cães e gatos será apenas uma das facetas da irresponsabilidade humana com a vida animal. Quem deveria controlar a forma como a população cria e trata seus animais? Não adianta criar leis para punir, sem criar mecanismos para conscientizar a massa. Nas escolas, nas igrejas, nos centros comunitários, nas praças, nas propagandas partidárias, sempre.

Mais e mais abrigos continuarão a existir, gerenciados por pessoas estressadas e desanimadas por verem tantos maus tratos, descaso das autoridades e ignorância gratuita, pois fatalmente a classe social não reflete o nível moral das pessoas, é difícil demais conviver diariamente nesta causa, e apesar de uma boa parcela dos veterinários evitar o atendimento a “protetores” por diversos motivos, não deixa de ser uma causa justa a partir do momento em que não escondem seus problemas pessoais e psiquiátricos na causa.

Então, neste contexto existem pessoas motivadas em ajudar os animais até as últimas consequências, pessoas que conhecem muito bem a legislação que protege estes seres, existem pouquíssimos políticos engajados de fato e com projetos que realmente ataquem a falta de conscientização do coletivo, projetos que ataquem a origem da superpopulação e entendam que o problema não se resolverá a curto prazo, a luz do exemplo fantástico que o projeto argentino de Almirante Brown é e foi.

E também existem veterinários, muitos, em prol da clínica e cirurgia de pequenos animais, mal remunerados, vivendo de clínicas e petshops ganhando comissão mesquinha por seu conhecimento e habilidades fazendo este trabalho de formiguinha junto aos protetores, essa massa de clínicos e cirurgiões que pula de estabelecimento comercial em busca de algo digno e palpável para o futuro, pois a esfera pública ainda não é capaz de absorver esta especialidade?

Hospitais públicos veterinários começam a surgir, muito timidamente, veterinários começam a mudar o cenário dos centros de controle de zoonoses, na verdade a maioria tentando exercer uma medicina veterinária de qualidade mesmo em péssimas condições de trabalho, e pensar que quando nos formamos nosso juramento é bem voltado para a qualidade de vida animal sim, mas sem nunca nos esquecermos de que a saúde pública esta por trás da saúde animal.

Será que só importa ao governo combater a raiva anualmente? Até quando a superpopulação de cães e gatos será desconsiderada?”

Fonte: Portal da Educação

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